Os ratos brancos

Há dezessete anos, nascia um menino naquela casa e que nela permaneceria por quase uma década antes de abandoná-la. Lá, ele brincava com as primas, com o avó e com a avó, brincava de rouba-bandeira, pega-pega e esconde-esconde. Ele gostava muito de lá, pois todos os dias eram de diversão.

Na verdade, ele nem se lembra de ter tido aulas naquela época.

Aquele menino era engraçado. Apegava-se muito rápido às coisas. Certo dia, ganhou um peixinho de presente, brincou bastante com ele (de algumas formas bem erradas também) e o amou bastante. Pena que, todos os dias, quando o seu pai chegava em casa do trabalho, esquecia-se do peixe. Deitava-se com seu pai e seu irmão e tomava mamadeira enquanto o peixinho azul passava fome.

Infelizmente, aquele peixe morreu de inanição. Triste fim, o menino ficou de luto por algumas horas e fez até um funeral digno para o animalzinho. Não chorou. Era ingênuo demais para entender aquilo, hoje se arrepende de ter pensado em comer o peixe, frito no almoço do outro dia. Ele adorava peixe frito com suco de abacate, que delícia.

Depois da morte do ser aquático (ou antes, ele não se recordava quando me contou a história), ele começou a criar dois ratinhos. Batizou-os como Tico e Teco, pois não sabia que estes eram originalmente nomes de esquilos. Queria que sua família tivesse lhe avisado, teria poupado os ratinhos da humilhação.

Nunca soube o que aconteceu com aqueles ratinhos depois. Algo sobre eles irem para uma fazenda, talvez. Não tinha certeza. Foi assim com o pônei e com o cachorro, todos eles foram para aquela mesma fazenda. Como era o nome mesmo? Ah, sim. “Fazenda dos Bichinhos Felizes”, deve ser isso.

E lá se foram todos os seus fiéis amigos. Todos o deixaram. Será que ele não era uma pessoa legal? “Por que todos fogem de mim?”, pensou, equivocadamente. Quem dera entendesse a morte, essa mariposa chatinha que vive em busca da nossa chama interior.

Cresceu sem respostas para essa pergunta e acabou ignorando todos os amigos da escola. Não achava-os tão legais quanto o Tico e o Teco, nem quanto o Bolinha (sim, o nome do peixe era bolinha, o mesmo nome que a maioria dos seus bichinhos). Hoje sabe o quanto estava enganado, pois os amigos da escola são tão bacanas quanto um casal de ratinhos brancos.

Passados alguns anos sem muitos contatos com o reino animal, nosso herói já se sentia solitário. Acho que foi por isso que se interessou por uma garota da sua sala, logo a loirinha fofa de olhos castanhos. “Isso nunca teria acontecido se ainda tivesse meus companheiros mamíferos”, pensou, não exatamente com essas palavras.

Ele não acreditava no amor. Achava besteira tudo o que aqueles filmes românticos mostraram e preferia os filmes de ação. Gostava de ler Harry Potter também, mas pulava todas as partes em que se narravam acontecimentos afetivos entre uma garota e um garoto. Era besteira, não precisava disso.

Outra coisa engraçada sobre aquele menino, era a sua ingenuidade. Lembro bem da primeira aula de educação sexual que ele assistiu. Achou a coisa mais nojenta do mundo e jurou nunca colocar o “objeto” dele dentro da “coisinha” de uma menina (achava os nomes corretos muito feios, e não conhecia nenhum palavrão até então).

A sorte dele era ser inteligente. Conhecia o método da inseminação artificial, já que sempre assistia o Discovery Channel. Ficou aliviado por ter essa opção na hora de ter filhos. Sexo era feio, era nojento e, principalmente, assustador. Trocou a cara de repulsa que fazia na aula por um sorrisinho despreocupado, embora ainda com vergonha da aquela aula.

Voltando à loirinha fofa de olhos castanhos.

Ele não acreditava no amor, até o dia em que o professor de matemática passou uma atividade em duplas. “Se juntem com quem está do seu lado!”, ele disse. Foi o destino, só pode ser sido o maldito destino.

O menino juntou sua cadeira com a da loirinha, sem trocar uma palavra. Aprendeu duas coisas. Uma: as garotas sem um cheiro muito mais gostoso do que os garotos. Duas: descobriu o que significava taquicardia. E de brinde, uma terceira: aqueles filmes bobocas de romance não eram tão bobocas assim. Fizeram a atividade de matemática. Ou melhor, ele fez. Era um pouco CDF.

Mentira, era muito CDF.

Fizeram a maldita atividade mais rápido que o resto da turma, estava tão nervoso perto dela que acabou se apressando. O professor foi lá ver as respostas e se impressionou por estarem todas certas. “Parabéns, meninos, vocês são uma bela dupla!”, disse enquanto piscava com o olho esquerdo.

Foi a deixa. Nosso herói, completamente envermelhado, recebeu um abraço da loirinha de olhos castanhos. E que abraço! Aquele dos bem apertados, que só um coração puro consegue dar. Aquele que, quando recebemos já crescidos, nos faz lembrar de tomar suco de graviola na casa do amigo da rua. Aqueles que não gostam de graviola costumam lembrar de quando subiam nas árvores para colher pitomba. Também existem aqueles (uma categoria especial de ser humano, na qual se inclui o nosso protagonista) que não gostam de graviola e tem medo de altura. Portanto, lembram no máximo das goiabas que roubavam do pomar do vizinho. Velhos tempos.

Pois foi assim mesmo. O mundo começou a girar em sua cabeça, tanto que não há lembrança do resto do dia. Só se sabe que, ao chegar em casa, ele perguntou para uma das primas se ela o achava bonito. Foi engraçado demais. Descobrir o amor e a vaidade no mesmo dia é muita coisa para um só coração.

Era uma sexta-feira, o que foi uma tortura enorme, pois o final de semana foi reservado para pensar nos cachinhos dourados. Na segunda, pediria ela em namoro. Afinal, se você gosta dela, deve pedí-la em namoro, certo?

Dito e feito. Segunda-feira de manhã, arrancou uma folha do caderno e escreveu “Eu te amo” na frente e “Quer namorar comigo?” no verso. Recortou-a em formato de coração e a colocou dentro de um envelope artesanal, carinhosamente dobrado e grampeado. Fez isso sem a autorização da mãe, já que não tinha permissão de usar o grampeador. Porém, se aprendeu algo naqueles filmes melosos, era que tudo se fazia por amor.

Botou sua obra de arte com cuidado no bolso externo da mochila de rodinhas. Uma versão bem bonita com a estampa do Pikachu. Falando nisso, eis um fato interessante: ele deixou suas cartas de Pokemon em casa naquela segunda. Não queria se distrair. Era o dia em que pediria sua futura esposa em namoro, a mulher com quem queria ter seus filhos.

Por inseminação artificial, claro, porque sexo é uma coisa muito nojenta.

Entrou no carro e passou todo o trajeto pensando no dia do casamento. Pesou na casa que iriam morar (uma bem grande, na praia). Chegou na escola sentindo o gosto da comida caseira que sua futura esposa prepararia todos os dias. Frango frito com suco de abacate, é claro, tomara que ela goste de abacate.

Entrou na sala animado. Quando viu sua amada, tirou de supetão a cartinha da mochila. Aproximou-se quebrando o contato visual, com seu pedido escondido atrás das costas. Coisa fofa a paixão de criança. Entregou a carta com as mãos trêmulas, cruzando os dedos e rezando silenciosamente em seguida.

Ela sentiu dificuldade para abrir aquele envelope tão bem montado. Decidiu rasgá-lo. Leu o recadinho de seu pretendente com os olhos cerrados, ficando mais bonita ainda que de costume. Quando terminou de ler, porém, seu rosto ganhou um aspecto triste. Se você visse, leitor, teria vontade de chorar.

“Gosto de você, mas eu já namoro o Pedro Victor.”

E o mundo girou de novo.

Droga, nada disso teria acontecido… Se ainda tivesse os malditos ratinhos brancos.

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